PSICOCARDIOLOGIA E PSICOESPIRITUALIDADE

 

Psicocardiologia

O interesse de investigar e aprofundar os estudos no campo da Psicocardiologia foi embasado em pesquisas de mestrado, doutorado e trabalhos na área clínica associando Psicologia com conteúdos da Cardiologia.

A literatura mostra que a Psicocardiologia faz parte da Psicologia da Saúde que investiga e trata os fatores de risco psicológicos que favorecem a aparição e o desenvolvimento das doenças cardiovasculares. Estudos corroboram esses achados (Lemos 2005) como” Associação entre Depressão, Ansiedade e Qualidade de Vida em Pacientes que Apresentam Quadro de Pós Infarto do Miocárdio”. Os resultados desse estudo confirmaram e demonstraram que os transtornos da depressão não são desencadeados pelo pós infarto do miocárdio, mas que estavam presentes antes da admissão hospitalar, demonstrando ainda uma clareza quanto à relação entre depressão como fator de risco para doença arterial coronariana (DAC). Pesquisas ressalvam que na última década, a depressão não tratada adequadamente é considerada tanto um fator de risco para o surgimento do infarto agudo do miocárdio (IAM), como um fator de pior prognóstico, aumentando sensivelmente a morbidade e a mortalidade (Tmai, 2002).

Segundo Porto, o paciente precisa ser visto na sua totalidade, no seu estilo de vida e não apenas sob condições estatisticamente relacionadas com uma doença cardiovascular. (2005).

Outra pesquisa denominada: “O Impacto da Cirurgia de Revascularização do Miocárdio no Abandono do Tabagismo” salienta que devido às características psicológicas associadas às doenças cardiovasculares e ao fato de que o cigarro é uma fonte de prazer atuando no cérebro dos fumantes como uma espécie de calmante imediato, é necessária uma avaliação mais aprofundada do fumante em um programa de abandono do tabagismo. O apoio psicoterápico, evidenciando os malefícios do cigarro e trabalhando os mecanismos de defesa utilizados pelo ego, principalmente com pacientes hipertensos ou coronariopatas, tem como objetivo o controle da ansiedade, além da aplicação de técnicas que auxiliem o abandono do tabagismo (Costa AA e cols. 2006, Goksel T. e cols. 2002, Kaplan HI 1993). Os resultados desse estudo demonstram que uma hospitalização para cirurgia de revascularização do miocárdio (CRM) pode influenciar na mudança de comportamento em pacientes, sendo esse um bom momento que pode ser trabalhado pela equipe multiprofissional com o objetivo de motivar os pacientes e seus familiares na busca de tratamento para cessação do uso de cigarros após a alta hospitalar (Pietrobon, 2007).

Como se pode observar nesses estudos a Psicologia não está mais restrita ao campo da “saúde mental”. A mera divisão entre “saúde física” e “saúde mental” tornou-se artificial. Para todos os lados que olhamos podemos ver a interação entre mente e corpo e, nela a importância da pesquisa psicológica (The Monitor, 2002). Essa assertiva é explicada através da Psicossomática em que considera o homem alicerçado pela interação da mente e do corpo sem dissociar um do outro. Enfatiza as dimensões biopsicossociais e culturais de cada ser humano. Segundo Maria Helena Santos de Sousa presidente da Sociedade Sul-rio-grandense de Medicina Psicossomática; “muitas doenças físicas são decorrentes de problemas emocionais”. Olhando sob uma perspectiva biopsicossocial a doença cardiovascular é o resultado de um conjunto de fatores biológicos, psicológicos, sociais e culturais que interatuam de modo complexo e único em cada pessoa.

Olhando sob uma perspectiva biopsicossocial a doença coronariana é o resultado de um conjunto de fatores biológicos, psicológicos, sociais e culturais que interatuam de modo complexo e único em cada pessoa. Assim a Psicocardiologia que é baseada num enfoque interdisciplinar, surgiu do contato cotidiano com o paciente coronariano, o qual mostra necessidade de uma abordagem psicocardiológica: é ele que nos dá o sinal do seu padecer, suas reações ante o estresse, seu tipo de conduta, suas emoções (Laham, 2006).

A diminuição da mortalidade por cardiopatia isquêmica, por exemplo, não só se faz com melhores equipes de saúde, mas também graças ao conhecimento e detecção dos fatores tradicionais de risco coronário e a campanhas de informação popular sobre o controle dos mesmos, tais como tabagismo, o colesterol elevado, a hipertensão e diabete. Podemos supor que alguns indivíduos estão protegidos das consequências adversas dos fatores de risco tradicionais por um efeito positivo do suporte social (Laham 2001).

Segundo Calatayud, 1999 a psicologia da saúde tem por objetivo:

  • Estudo de processos psicológicos que participam ou determinam o Estado de saúde
  • Risco de enfermar
  • Condição de enfermar
  • Recuperação

A Psicologia da Saúde recebe, modula e supera as experiências de outros modelos teóricos práticos, psicológicos e sociais, que foram e são implementados na abordagem das doenças. Merecem considerar a psicologia clínica, a psicologia médica, a medicina psicossomática, a medicina condutual e a medicina comunitária.

Na década de 60 começa a existir as primeiras investigações no campo da Síndrome de Estresse a Psicologia Aplicada à Cardiologia, e a denominação é Psicocardiologia. Ela se inspira na denominação de língua inglesa-Cardiac Psychology – e na castelhana, Psicocardiologia (Schvinger, 2003).

Seu campo é a prevenção primária, a prevenção secundária e a reabilitação de pacientes com doenças cardiovasculares, com o fim de:

Informar e promover na população um estilo de vida que ajude a prevenir o desenvolvimento de doenças cardiovasculares; Melhorar os resultados médicos e psicológicos em pacientes cardíacos; Criar e reforçar as redes de apoio social para os pacientes (Laham, 2006).

Coração…

A Doença Arterial Coronariana (DAC) constitui uma das principais causas de mortalidade nos países desenvolvidos, respondendo por 16,7 milhões de mortes por ano, havendo uma projeção para o ano de 2020 de que será a causa principal de mortalidade e incapacitação.

Muitos são os fatores que culminam para a DAC, como o estresse, hábitos alimentares e sociais (fumo e consumo de álcool), sedentarismo e histórico familiar. Mas, também, há referências mostrando que existem outros fatores de risco na doença cardíaca destacando-se os fatores emocionais e as características de personalidade, que desempenham um papel de destaque tanto na gênese quanto na recuperação da depressão e do Infarto Agudo do Miocárdio.

Têm-se várias campanhas de informação e de prevenção contra os fatores de risco citados acima, porém muitas pessoas encontram-se acima do peso, tabagistas, sedentárias, e preservam velhos hábitos de reviver o mesmo estereotipo, mesmo sabendo que estão se prejudicando sua saúde.

Esse comportamento se repete porque a mudança de hábitos é um processo complexo. O fato de ouvir que se devem mudar os hábitos de vida ou adequá-los, não é suficiente pra fazê-lo. São costumes que estão agregados à vida diária e que acompanham o indivíduo há muito tempo, sendo difícil alterá-los sozinho. É necessária uma ajuda!

Além do seu corpo, seu eu psico precisa ser diagnosticado, pois é uma parte do todo, de cada pessoa. Toda mudança gera certa hostilidade, raiva, agressividade, podendo se relacionar com o estado de suas artérias coronárias ou até mesmo com a variação de sua pressão arterial.

Personalidade coronariana – consiste no comportamento, estilo, modelo adotado pelo indivíduo para lidar com os acontecimentos do ambiente que o cercam. O termo “Personalidade coronária” foi descrito na década de 40 para descrever os diferentes tipos de personalidade das pessoas.

Tipo A: Este se caracteriza como um conjunto de comportamentos e emoções encontrados em pessoas que estão constantemente em conflito. Impacientes, competitivos, controladores. Não sendo muito atentos aos sintomas de dor e fadiga

Tipo B: Nesse tipo os indivíduos tendem a ser mais calmos e relaxados. Abertos as emoções, possuem maior capacidade de dar e receber. São seguros, tranquilos e pouco competitivos.

Tipo C: Possuem maior facilidade a desenvolver infecções como alergias e dermatites. Obsessivos, introvertidos acabam por interiorizar seus sentimentos. Tende a níveis elevados de estresse.

Tipo D: Possui certa inibição social, tende a depressão, ansiedade, irritação. Estás pessoas possuem emoções “negativas” e as suprimem.

Tipo Hipertenso: Caracterizado por um comportamento deprimido, passivo, pessimista, e algumas vezes possuem dificuldade de expressar suas emoções. Podendo ter certa hostilidade reprimida.

Na prática clínica as pessoas, em sua maioria, possuem formas intermediárias. Então, ao invés de tentar identificar uma ou mais “pessoas em risco”, os estudiosos têm procurado isolar as dimensões psicológicas que a maioria dos associados com determinada característica possui. E a partir desse conhecimento, procurando orientá-los de forma integral, ou seja, corpo mente e espírito.

Por que Pedagogia no curso de Psicocardiologia?

As diferentes áreas que compõem o curso de Psicocardiologia abordam campos específicos da Ciência. A Pedagogia é um campo de conhecimento que se ocupa do estudo sistemático da Educação, que intervém no desenvolvimento humano dos indivíduos e grupos na sua relação ativa com o meio natural e social, num determinado contexto.

A Educação, sendo uma relação de influências entre pessoas, permite uma intervenção voltada para fins desejáveis no processo de formação.

A metodologia apresentada no curso está embasada nos teóricos Pichon Revière, Paulo Freire, Edgar Morin e Jean Piaget, através de uma leitura do mundo, das inter-relações, das interações e da formação de vínculos que leva o aluno a construir o seu próprio conhecimento. Para tanto, é necessário o acompanhamento sistemático do planejamento de cada professor e das inter- relações feitas entre as disciplinas.

Assim sendo, a Pedagogia é o fio condutor de todo o processo para que o curso alcance os objetivos propostos.

 

INTRODUZINDO UM NOVO PARADIGMA

Conceição M. Lemos

Victor Schermer afirma que desde o século 19 a psicologia, a psiquiatria e a psicoterapia se separaram da filosofia e da teologia como disciplinas independentes baseada na pesquisa empírica. Porém em resposta ao renascimento da espiritualidade na cultura contemporânea ele afirma que é mais do que tempo para um novo paradigma. Um novo nível de entendimento, um novo paradigma, portanto está envolvido.

Segundo o autor um novo paradigma “psicoespiritual” na psicologia supõe que agora são exigidas explicações espirituais para experiências e comportamentos ao passo que, no passado, elas estavam excluídas.

Diretora da Associação Médica Brasileira (AMB), a psiquiatra Carmita Abdo destaca que há uma proximidade da medicina com a espiritualidade remete ao Novo Testamento, onde o perdão era parte da mensagem de Jesus e presente nas cartas do apóstolo Paulo.

O objetivo é desenvolver um paradigma “psicoespiritual” que colocasse o entendimento espiritual em conjunção com ideias de bases científicas referentes a mente e ao seu desenvolvimento. O novo paradigma  integrará princípios espirituais modelos psicológicos da mente  e do comportamento.

Tornando-se possível suscitar questões, formular hipóteses e desenvolver estratégias de tratamento de modo que começamos a pensar na psicoespiritualidade como uma área de investigação e prática legítima e sistemática em vez de um pet-pourri de testemunho pessoais com curas miraculosas e pesquisas facinantes, mas descordenadas.

A espiritualidade vem a ser um tema da Psicologia nunca como propósito de doutrinas ou de assumir um papel de detentora de verdades diferentes.

A Psicologia deve considerar a espiritualidade como algo que é inerente à natureza humana e não rotulá-la como patologia.

Deve ser tratada com considerações e não decretos de verdades. A espiritualidade é algo que faz parte do mundo interno de cada ser humano construído por aquele que habita e vive neste mundo interno.

Psicologia e Espiritualidade caminham na ambiguidade.

A premissa central para os paradigmas e a unidade do corpo, mente e espírito. Somos todos possuídos por uma divindade interior, isto é: a espiritualidade é aquele aspecto de nossa psique que está sempre procurando união com o misterioso e o além, em que  oferecerá uma maneira de pensar e praticar a psicologia, a psicanálise e a psicoterapia

Psicoespiritualidade esse novo paradigma na Psicologia supõe que agora são exigidas explicações espirituais para experiências e comportamentos ao passo que, no passado elas estavam excluídas.

Considerando que a Espiritualidade é uma caminhada que se constrói, não somente através da teologia, da psicologia, da filosofia, mas por meio de todas as áreas da ciência adquirimos conhecimento e aprendizagem para esta construção e é peculiar a cada pessoa particularmente, porque cada um busca de acordo com suas necessidades. É uma atividade transformadora, numa relação dialética, modificante com o mundo, relação esta que tem seu motor na necessidade. Logo nossas vivências são uma caminhada de espiritualidade. Kirkgard diz que o indivíduo possui espiritualidade quando consegue possuir capacidade de fazer uma conexão com o transcendente, essa conexão harmoniza o indivíduo.

 

PSICOESPIRITUALIDADE

Rosa Cecilia Pietrobon

A subjetividade do conceito de espiritualidade leva-nos à necessidade de preparação pessoal e profissional na busca de intervenções que considerem o ser biopsicossocial e espiritual na prestação de cuidados. O papel da espiritualidade na vida de uma pessoa é um indicador de humanização, especialmente por apreender como ela concebe aspectos espirituais, transcendentais ou sagrados.  Desta forma, por meio da interface entre Psicologia e Espiritualidade torna-se necessário aprender a lidar adequadamente, na prática clínica, com sentimentos espirituais bem como comportamentos religiosos, buscando despertar ou fortificar nas pessoas condições emocionais positivas, já abalizadas pela ciência como recursos eficazes no combate a doenças. Esses elementos funcionariam, na verdade, como remédios para a alma – mas com repercussões benéficas para o corpo.

A Psicoespiritualidade busca trabalhar o ser humano na sua totalidade, visando um equilíbrio entre a mente, o corpo e a alma, de forma a criar harmonia entre as ações, pensamentos e sentimentos da pessoa, desta forma importante considerar o ser biopsicossocial espiritual.

Pensando a saúde como um processo dinâmico de desenvolvimento em quatro níveis: físico, psíquico, social e espiritual, observa-se que a saúde transcende aos aspectos meramente fisiológicos estando relacionada à busca por uma melhor qualidade e estilo de vida, onde a dimensão espiritual necessita ser também desenvolvida.  A Organização Mundial da Saúde (OMS) incluiu o termo “espiritual” ao seu conceito de ser humano biopsicossocial e espiritual, sendo saúde e doença como um binômio, que constitui a identidade das pessoas, organizando sua vida cotidiana, individual, familiar e social.

Considerando as origens etimológicas das palavras espiritualidade e religião, alguns autores referem que a palavra espiritualidade vem do latim spiritualitas, do substantivo spiritus – o “sopro da vida” (Carrete; King, 2004). Para Abbagnano (2007), o “espírito”, vem de pneuma, ou “sopro animador” utilizado pela física estoica e por outras doutrinas antigas e modernas, a dimensão espiritual encontra-se como uma semente presente desde a origem da vida humana. Já a palavra Religião vem do latim, religare e significa religar, religar o homem com Deus. Levando-nos a um melhor entendimento sobre a distinção entre os conceitos de espiritualidade e religião.

A espiritualidade tem sido entendida como o modo pelo qual as pessoas entendem e vivem as suas vidas tendo em conta o seu sentido ou como um processo por meio de experiências, cujas características incluem uma busca de significados e propósitos, por meio de laços (conectando-se consigo mesmo, com um ser superior, com outros, ou com a natureza), valores e transcendência, os quais ajudam a ultrapassar os problemas, obstáculos e circunstâncias desagradáveis do quotidiano. Alguns autores, como Muldoon, Maureen; King, Norman (1995) e Oman, Doug (2015), partilham a ideia da importância da espiritualidade enquanto uma caminhada em que as pessoas podem encontrar um sentido para a vida, ter esperança e ser resilientes diante de situações adversas, buscando uma harmonia para suas vidas, relações e bem-estar.

Encontramos também referências na Psicologia da Saúde em relação à espiritualidade e à religiosidade como aspectos auxiliares no enfrentamento da doença, podendo-se dizer que contribuem para a melhoria da qualidade de vida, por enfatizar os aspectos sadios do desenvolvimento humano. Em 1998, surgiu com Martin Seligman (2007), a discussão acerca dos fatores de proteção da saúde por meio da Psicologia Positiva.

Desta forma como profissionais da saúde, necessitamos estar preparados para pensar, refletir e trabalhar a dimensão espiritual, sendo o ser humano um ser em relação: com um ser superior, consigo mesmo, com seus semelhantes, com a natureza, buscando auxiliar nosso paciente a conectar-se com seu SER e vivenciar valores e virtudes. No fundo, a espiritualidade sempre tem a ver com o transcender a si mesmo e para transcender a si mesmo é preciso entrar em relação.